Terça-feira, Maio 20, 2008 |
CINEMA Re mexendo em papéis velhos de uma velha gaveta, encontrei o que procurava já há alguns dias. O texto abaixo foi publicado no jornal 'Tribuna do Norte' no dia 11 de março de 1984. E com algumas necessárias modificações resolvi trazê-lo para este espaço. Espero que tenham uma boa leitura e também uma boa informação.
QUANDO O BRASIL COMEÇOU A FALAR
As primeiras experiências sonoras no país foram realizadas entre 1927/29 através de filmes (curtos) produzidos por Luis de Barros, Paulo Benedetti e outros. E nossa primeira fita de longa-metragem(falada, evidentemente) foi 'Acabaram-se os otários'(29), dirigida pelo Luis de Barros, enquanto o primeiro filme-revista viria logo depois com 'Coisas Nossas'(30/31), do norte-americano Wallace Downey, que era o diretor da Colúmbia e representante local de Byington & Company. O som, finalmente, seria dominado com 'Carnaval em 1933' que a equipe de Fausto Muniz realizara. A seguir lançaram 'A voz do carnaval', uma realização da dupla Ademar Gonzaga e Humberto Mauro com equipamentos já importados. E em 1935, associando-se ao Downey, Gonzaga inaugurava o filme pré-carnavalesco 'Alô, alô Brasil ' e no ano seguinte repetiria a dose com 'Alô, alô Carnaval' que teve maior sucesso e formaram as primeiras platéias do cinema brasileiro. No mesmo ano o Oduvaldo Viana fazia 'Bonequinha de seda', pretendendo, com padrões técnicos sofisticados, transplantar o modelo hollywoodiano para nossa região. Seu outro filme('Alegria') ficaria inacabado em face de um desentendimento com o Ademar Gonzaga. Mas, foi em 1937 que três películas anunciaram a maturidade do som: o cineasta Humberto Mauro realiza obra de reconstituição histórica em 'O descobrimento do Brasil'; o Raul Roulien('Aves sem ninho'/39) faz 'Grito da mocidade' e tenta mostrar que aprendeu o dinamismo americano; e Mesquitinha realiza obra de inspiração chapliniana com 'João ninguém'. Contudo, a produção de filmes de ficção que já era diminuta na década de 30, quase acabou no início da seguinte. Entre os anos de 1944/54 surgiram Oscarito e Grande Otelo que encarnaram a gíria do momento e estabeleceram um primeiro clima de intimidade com o público. Filmes como 'Carnaval no fogo'(Watson Macedo), 'De vento em popa' e 'O homem do Sputnik', ambos de Carlos Manga, 'É com este que eu vou'(José Carlos Burle), mostraram os (tre)jeitos desengonçados dos dois grandes humoristas da época. No entremeio, contudo, apareceram também as figuras de Ankito e Zé Trindade. Foram todos eles, sem dúvida, os primeiros nomes de bilheteria das ditas 'chanchadas nacionais'. Porém, acredito que sim, nenhum que se comparasse ao iniciante ator de origem luso-espanhola. Também e paralelamente(na década de 50)começaram a surgir novas mentalidades. Um grupo de jovens rebelou-se contra o falso populismo das chanchadas e produções advindas da Vera Cruz. E mesmo o sucesso de 'O cangaceiro'(1953) não impediu que a Vera Cruz entrasse em crise, muito embora a fita de Lima Barreto('A primeira missa', 61) tivesse obtido projeção internacional e aberto o caminho do cangaço. Fitas como 'Agulha no palheiro'(Alex Viany, 53),'O canto do mar'(Alberto Cavalcanti, 54), 'Rio 40 graus'(Nelson P. dos Santos, 55), 'O grande momento'(Roberto Santos, 58) e outras, começaram a aflorar na nossa cinematografia. Em documentários (curtos) como 'Arraial do Cabo'(Paulo César Sarraceni, 59) e 'Aruanda'((Linduarte Noronha, 60); em ficção como 'Couro de Gato'(J. Pedro de Andrade, 60) e 'O menino da calça branca'(Sérgio Ricardo, 61), o movimento tenderia a tomar forma mais precisa. E por volta do começo dos anos 60 já se falava no que seria chamado de Cinema-Novo. Filmes muitos surgiram e contribuíram para a renovação do nosso cinema brasileiro, como 'Barravento'(Glauber Rocha, 61), 'Porto das Caixas'( Sarraceni, 62), 'Os Cafajestes'(Rui Guerra, 62), 'O pagador de promessas'(Anselmo Duarte, 62) e outros. Daí em diante, portanto, o lema seria de 'uma câmera na mão e uma idéia na cabeça', sentença proferida pelo Glauber Rocha e contestada por alguns que se diziam independentes. Mas, 'o que a gente pode ver hoje é que o resultado principal do Cinema-Novo foi a afirmação cultural do cinema brasileiro', dizia depois o Nelson Pereira dos Santos. E a sua maturidade foi atingida, principalmente, a partir de 'Vidas Secas'(1963), versão baseada no vigoroso romance de Gaciliano Ramos e que o próprio Nelson dirigiu. Então, a literatura de cordel, os cantadores das feiras nordestinas, o mundo mítico e místico de um povo sofredor e fanático nas suas crenças religiosas e sempre atuantes, fizeram surgir um mentor que já iniciara a visão de um período. E reaparece o Glauber Rocha com 'Deus e o Diabo na Terra do Sol'(1964), para alguns, o melhor filme brasileiro de todos os tempos. Acreditamos que tal fita imortalizou o saudoso cineasta. Tivemos, a partir deste momento, alguns nomes importantes na cinematografia nacional. Bom... Porém aí já é outra história...
ESPAÇO LIVRE
RIMA ENTRE RIMA
Eu sei lá dessa vida!
De miudeza, safadeza.
Vida de hipocrisia, tristeza.
E pouca alegria.
Também muita soberba.
De mentira deslavada.
Uma corrupção desenfreada.
Vida aqui e ali.
Tudo igual, usual.
Desde oligarquia e orgia.
Minha?... Tua?...
Vida da minoria!
Bené Chaves
Terça-feira, Maio 13, 2008 |
(Imagem: retirada do 'Google') ITINERÁRIO ALFABÉTICO (Final)ZONZEIRA essa minha. Tinha o hábito de zanzar. Mas, voltei a interrogar entre paredes: a vida é uma loucura? Acho que Painhô acreditava que sim, embora Mainhô não ligasse pra essas coisas. Preferia ficar na sua cadeira de balanço a cerzir alguma roupa tirada do baú. E Tia Chica, o que falava? A preta velha envergonhada dizia que todas as pessoas são loucas, umas com mais intensidades e outras com menos. Mas, ela era assim mesmo, sempre exagerava quando ia dizer algo. Porque, de certa forma, toda regra teria sua exceção. Porém, logo se dirigia ao seu local de trabalho. Ou seja: a cozinha. Ali iria se entreter com suas iguarias inigualáveis. Os outros filhos, ainda pequenos, não alcançavam assunto tão pertinente.
Sabia, eu, entretanto, que a grande maioria sofria de distúrbios ocasionados, acho, pela hereditariedade. Os fatores externos seriam meras conseqüências. Acreditava que o gene caracterizava a índole do ser humano. (E pra não variar, ter-ser-iam-se aqui também exceções). Se você é uma vasilha de água hoje e amanhã é um tonel de vinho, lógico que tal mudança brusca de cor (ou comportamento) não era normal. Principalmente quando este vinho surgia com um sabor amargo ou azedo. Então, o caso passaria a ser tratado como um estímulo ancestral? Ou apenas uma manifestação agravada por um descontrole extrínseco? Tínhamos aí o endógeno em constante disputa com o exógeno.
Na verdade, indagações como essas deveriam ser alvo de profundos estudos. Mas, o meu pai acreditava (e ele tinha uma crença inabalável) que tudo tem sua raiz. E, como parte oculta, ela poderia abranger conseqüências inimagináveis. A vida tem lá seus monstrinhos, era evidente que sim. O seu ciclo é engraçado: desde tempos idos existem mutações, variações, atos e fatos. O ciclo-vicioso dos mundos e fundos.
Disse, então, Painhô: acompanhei seu nascimento, meu filho. Vi tudo direitinho, como nasceu e foi brotado, igualzinho uma flor. As plantas também têm suas séries de fenômenos, as raízes expelindo ramos, folhas e frutos. O que a natureza expulsa é algo surpreendente, existência rara. Como explicar a metamorfose da larva dos insetos lepidópteros em simples borboletas? Naturalmente porque seria o acasalamento de um labrego?
E continuou ele: o certo é que não existe muita diferença entre este dito rude e o irracional, pois a vida precípua dos homens, com seus modos, tornaram-nos atualmente mecanizados, frios, contrários à razão. E se houve alguma evolução dos males iniciais, esta se deu apenas no clarão tecnológico e conhecimento da ciência, adaptados que foram ao modus vivendi da época.
Abri a janela e fui tomar um pouco de ar, talvez um ar impuro. Divisei, do parapeito, pessoas tristes jogando-se num chão intervalado onde um longo rio de sangue afogava transeuntes que circulavam pelo local. Mas aí já é outra estória, pois adormeci e comecei a sonhar...
ESPAÇO LIVRE (Imagem: 'Google')
 POEMA DO EDUARDO GOSSON(RN)
CONCERTO, CONSERTO?
Na vitrola Johann Sebastian Bach executa os Concertos de Brandeburgo nº. 3, 5 e 6
Porque é sábado, e a tarde veste-se de profunda melancolia, os pássaros não ensaiam vôos, nem a misericórdia cai sobre o avô de terno cinza.
Ele tem que esperar pelo domingo e, quem sabe, pelo anum cego que desistiu de auroras e anuncia um sábado vazio.
Terça-feira, Maio 06, 2008 |
VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (29)  Foto de Pascal Renoux De Herivelto Martins e Roberto Roberti:
Ai, ai, ai, Izaura Hoje eu não posso ficar Se eu cair nos seus braços Não há despertador Que me faça acordar Eu vou trabalhar O trabalho é um dever Todos devem respeitar Oh! Izaura me desculpe No domingo eu vou voltar Seu carinho é muito bom Ninguém pode contestar Se você quiser eu fico Mas vai me prejudicar Eu vou trabalhar
Obs: Versos da música 'Izaura'(1945), dos compositores acima citados. Roberto Roberti, compositor, estreou em 1935 com o samba 'Queixas de Colombina', gravado por Carmen Miranda e a marcha 'Foi numa noite assim'. E no ano de 1938 lançou para o carnaval 'Abre a janela', que o Orlando Silva gravou. Em outubro do mesmo ano deu o primeiro passo - juntamente com outros autores - para a formação da Associação Brasileira de Compositores e Autores. E concretizaram sua fundação em 1942. Sua produção tornou-se menos regular a partir de 1945, depois do sucesso da composição aqui destacada. Mas, entre uma ocasionalidade e outra, incluem-se 'Pra que saber', gravado pela Ângela Maria e o samba 'Sistema Nervoso', com Orlando Correia. 'Izaura' foi gravado na época pelo Francisco Alves e recebeu o prêmio da prefeitura. Destacou-se como um dos maiores sucessos do carnaval daquele ano. Roberto Roberti nasceu no Rio de Janeiro no dia 9 de agosto de 1915 e morreu com 89 anos em 16 de agosto de 2004.
Sobre o Herivelto Martins, vide pequena biografia nos arquivos publicada aqui em 8 de novembro passado.
Destaco alguns versos de 'Abre a Janela'(1938), que o Roberti fez em parceria com o Arlindo Marques Jr.(1913/68):
Abre a janela/ Formosa mulher E vem dizer adeus a quem te adora Apesar de te amar/ Como sempre amei Na hora da orgia em vou embora.
ESPAÇO LIVRE
TÉDIO
Inebriando-me sempre de ti permaneço sóbrio de ilusões. De tuas cálidas, alcoolizadas e ambíguas paixões.
E num gesto de temor bebo o que me restou: um corpo em transpiração.
A febre diluída do amor!
Bené Chaves
Terça-feira, Abril 29, 2008 |
<  Arte de Maria da Conceição Valdágua ITINERÁRIO ALFABÉTICO (6)
UMA vez tive um sonho estranho: estando sozinho neste mundo áspero e rude, não pude deixar de retalhá-lo, golpeando-o em partes iguais. Permanecia sedicioso em querer mudar aquele inferno. Olhava em frente e via o trajeto repartido em não sei quantas divisões. Cheguei a me assustar, juro. Atravessei enormes desfiladeiros e pegando um atalho parecia fugir, como em filmes de faroeste, de grande quantidade de índios. Intrincado e emaranhado, o solo ficou secarrão. Claro que não estava acostumado com essas andanças, a bem dizer talvez fosse a primeira vez que saía de casa. Mundão matuto esse, tudo no desprimor. Então, tardinha, eu vinha vindo tardo para me achegar no lugarejo. O que não gosto nem de contar. Mas, houve uma espécie de explosão e gente muita havia morrido. Tudo tomado nas devidas apropriações, com queimação, saque... Haviam desmandado. E fiquei ardendo nas supostas chamas. Uma espécie de delírio... Quando minha mãe me acordou, estava lá eu no escuro a debater contra o próprio travesseiro, parecia mesmo evidenciar tais episódios. Passou, repassou e ficaram somente as distâncias. E até o presente momento não entendi a razão daquela seqüência de imagens. Talvez fenômenos psíquicos postos involuntariamente.
VEZ ou outra Painhô lia no sofá um livro de historinhas que ele conservava na estante. Dizia: esse capítulo é ótimo, tem cada piada... Dobrei, então, a folha e ele começou a ler, parando na metade. Vi seus pêlos dos braços arrepiarem e os cabelos também, parecendo mais uma vassoura ao contrário. Na verdade, ele puxou o livro com força e não leu mais nada. Falou que os relatos eram meio obscenos e foi guardar o dito compêndio ou coisa parecida. Deve ter escondido entre as traças da velha estante. Mas, outro dia ainda irei testemunhar suas páginas. Depois encontrei meu pai na rede nova relembrando os dias que passava na fazenda, quando dizia que remoçara dezenas de anos. E concluí que se ele morasse lá talvez nunca fosse envelhecer, mesmo com o reforço da palavra. Vê como era o vaqueiro de meu avô, moço, moço, disposição de bicho, carinha de menino. E ali mesmo ele dormiu uma soneca, era hábito a sesta de Painhô depois do almoço.
XIXI eu ainda fazia no berço. Como não existiam fraldas descartáveis, sobrou mesmo pra Tia Chica que lavava uma a uma aquelas intermináveis de tecidos de algodão. E tinha, claro, que suprir minhas necessidades fisiológicas. Ficava ali sem fazer nada, a espera de uma mão bondosa que viesse trocar a velha urina escorrendo nas minhas robustas pernas. Que cuidassem de mim, pois! Afinal de contas, não tenho culpa dos acontecimentos. Se existem responsáveis no caso aí são os meus pais que resolveram fazer amor e então, depois de nove meses daqueles entreveros na cama, eu nasci. Isto é mais do que evidente e todos devem pensar assim, inclusive eu, que sou parte interessada. E digo mais: de certa maneira Painhô e Mainhô também não tiveram lá a culpa toda, pois já são frutos de outros amores. Partindo dessa premissa, todos têm sua parcela de uma forma ou outra. Não irei, tenho certeza, desabrochar uma vida quando estiver de colóquios amorosos com uma mulher? Nesse ponto, sou responsável também. Ou irresponsável?
ESPAÇO LIVRE
O poema abaixo já foi publicado aqui em janeiro de 2005. Faz parte do livro 'Cinzas ao amanhecer' (Sebo Vermelho, 2003). Espero que tenham uma boa leitura. Ou releitura.
INVERSÃO DAS COISAS Amanhecerei desfeito em cinzas?
Amanhã serei invisível...
Anoitecerei um outro ser?
À noite serei um fantasma...
Amanhecerá uma bela alvorada?
Amanhã será um novo dia...
Anoiteceria uma aurora reluzente?
Amanheceria a escuridão pendente...
A noite seria com forte sol?
A manhã seria com branda lua... Bené Chaves
Terça-feira, Abril 22, 2008 |
 VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM(28)
De Wilson Batista e Sílvio Caldas
Nos olhos das mulheres / No espelho do meu quarto É que eu vejo a minha idade / O retrato na sala Faz lembrar com saudade / A minha mocidade A vida para mim tem sido tão ruim / Só desenganos Ai, eu daria tudo / Para poder voltar Aos meus vinte anos. Deixaste minha vida / A sombra colorida De uma saudade imensa / Deixando-me ficaste Mostrando-me o contraste / Matando a minha crença. E hoje desiludido / Muito tenho sofrido Cheio de desenganos / Ai, eu daria tudo Para poder voltar / Aos meus vinte anos.
De Wilson Batista e Haroldo Lobo:
Eu quero uma mulher, que saiba lavar e cozinhar Que de manhã cedo, me acorde na hora de trabalhar Só existe uma e sem ela eu não vivo em paz Emília, Emília, Emília, eu não posso mais Ninguém sabe igual a ela Preparar o meu café Não desfazendo das outras Emília é mulher Papai do céu é quem sabe A falta que ela me faz Emília, Emília, Emília, eu não posso mais...
Obs: Versos das músicas 'Meus vinte anos' e 'Emília', de 1942 e dos autores acima citados respectivamente. Wilson Batista era compositor, filho de um guarda municipal de Campos e ainda menino tocava triângulo numa banda organizada pelo tio. Aos 16 anos fez 'Na estrada da vida', samba gravado em 1933. Um ano antes gravou 'Por favor, vai embora', com Benedito Lacerda e Osvaldo Silva. Iniciou a apologia do malandro com 'Lenço no pescoço', que foi gravado pelo Sílvio Caldas em 1933. E, com isso, deu trela à famosa polêmica com o Noel Rosa, que respondeu em 'Rapaz folgado'(1932). E depois seguiram-se réplicas e tréplicas. Sempre compondo marchinhas para o carnaval lançou sua última em 1962, com o César de Alencar e feita em parceria com Jorge de Castro e Alberto Jesus. Wilson Batista nasceu em Campos, R. J., no dia 3 de julho de 1913 e faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 7 de julho de 1968.
Haroldo Lobo era filho de Quirino Lobo, que tocava flauta e violão e irmão de Osvaldo Lobo, o Badu, compositor e baterista. Aos 13 anos já compunha samba, embora seu primeiro emprego fosse como guarda na polícia de Vigilância. Algumas composições suas tiveram sucesso popular porque se referiam aos fatos do cotidiano e de repercussão nacional e internacional. Exemplo: 'Oito em pé'(1942), marcha gravada pela Araci de Almeida. Venceu também, no período, alguns concursos para o Carnaval. Era um folião dos mais animados. Haroldo Lobo nasceu no Rio de Janeiro em 22 de julho de 1910 e morreu em 20 de julho de 1965. Curioso observar que o mês de Julho foi fatídico para os compositores citados, embora também fosse sinal de alegria nos seus nascimentos. Seria, talvez, uma ironia do destino.
Sílvio Caldas, cantor e compositor, participava de festas, dançava e sapateava nas mesas dos bares. E também cantava, óbvio. Já com 6 anos cantou um samba de bloco no teatro Fênix, durante conferência literária. Começou a trabalhar logo cedo como aprendiz de mecânico. Depois foi para a capital paulista e continuou sua longa carreira, começando a gravar no início dos anos 30. Nasceu no Rio de janeiro em 23 de maio de 1908 e faleceu em Atibaia, SP, no dia 3 de fevereiro de 1998. Viveu, portanto, um bocado de tempo e deu muitas alegrias para seus admiradores.
ESPAÇO LIVRE
DESNUDAR
Na fantasia da existência tiro a máscara da ilusão e choro os devaneios perdidos. Nas várias fases de um rosto em decomposição.
E recrio a sua e a minha imagem nos clarões das boas lembranças.
As minhas, da inocência revivida.
As suas, de um suposto renascer.
Bené Chaves
Terça-feira, Abril 15, 2008 |
 ITINERÁRIO ALFABÉTICO (5)
QUANDO meu pai me levava a passear, eu sempre pedia pra entrar numa daquelas salas de cinema. Ali ele subia comigo e conseguia através da amizade com o projecionista me mostrar uma enorme máquina de rolos gigantescos a girar ininterrupta. Então discutia com o homenzinho sobre assuntos que eu nada entendia e metia o olho direito num daqueles buracos, enquanto gesticulava mandando que examinasse uma luminosidade retangular na minha frente. Parece-me que exibiam um seriado desses que obrigavam você a acompanhar toda semana. E eu me entusiasmava tanto que ficaria o dia todo na observação não fosse o próprio sujeito a me lembrar que teria de sair. Sabia, isso sim, que era gostoso o suspense de um filme para o seguinte, vendo-me depois na expectativa de nova espiada na aparelhagem cinematográfica. Fui daí, então, me interessando pela continuação da fita e sempre fugia pra assistir os seriados com a ajuda do amigo de Painhô.
REGISTREI, desde cedo, em meu diário, que não tinha quase esperanças com esse mundo que aí está. Talvez fosse preciso muitas transformações. De qualquer maneira apenas tento colocar e, se possível, corrigir fatos danosos que marcam irregularidades absurdas nesta nossa vivência. Então, a lamentação é freqüente à insensibilidade do ser dito humano. E dei, portanto, o veredicto simples, porém implacável: meus olhos viam, desde criança, uma humanidade bestificada. Quando ficar adulto e sentir atrações externas e sentimentos próprios ao meu corpo jovem, farei o que for possível para tudo se transformar como uma flor desabrochada em plena madrugada.
SÚBITO lembro-me de um episódio: ainda no ventre de Mainhô vi uma infinita escuridão acercar-se, pensando depois e batucando sobre a causa e efeito de tais ruídos estranhos. Pareciam ser labirintos inatingíveis e cores diversas em constantes combates. Fios corriam dispersos, atingiam meu cérebro, deslocavam-se em círculos e incomodavam o corpo inteiro. Mas, depois tudo passou e me vi livre de misteriosa e azucrinante coação. Foi um sufoco que deixou tonto um bom período o feto que ainda estava em estrutura de se desenvolver.
TODOS viram (ou quase) naquele menino um ser talvez destemido e disposto a enfrentar situações que a vida iria impor. Marco de uma determinação? Pressenti o acontecido e fiquei boquiaberto ao saber da extravagância e fecundidade do problema. Mainhô e Painhô saíram a gritar de contentamento e felicidade, o oposto do que senti quando soube que iria nascer. Já tinha dito: não era o que desejava. Não queria assistir o que o mundo parecia programar ante meus (e talvez seus) frágeis olhos: o sofrimento da grande maioria das pessoas. E observei-o e ainda observo-o assombrado e temeroso.
ESPAÇO LIVRE
O poema abaixo faz parte do livro 'Cinzas ao amanhecer' e já foi publicado aqui no início de 2005. Coloco-o novamente para outras avaliações. Espero que tenham uma boa leitura.
ESCURIDÃO
Nos gestos radicais aniquilam-se passados alegrias tristezas presentes.
Ilusões de uma vida.
Nas atitudes normais evidenciam-se coerências transigências ponderalidades futuros.
Sombras de um eco.
Bené Chaves
Terça-feira, Abril 08, 2008 |
 VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (27)
De Zé da Zilda e Marino Pinto:
Aos pés da Santa Cruz você se ajoelhou
Em nome de Jesus um grande amor você jurou Jurou, mas não cumpriu, fingiu e me enganou Pra mim você mentiu Pra Deus você pecou O coração tem razões que a própria razão desconhece Faz promessas e juras, depois esquece Seguindo este princípio você também prometeu Chegou até a jurar um grande amor Mas depois esqueceu.
***
De Roberto Martins e Mário Rossi:
Hoje não existe nada mais entre nós Somos duas almas que se devem separar O meu coração vive chorando e minha voz Já sofremos tanto que é melhor renunciar A minha renúncia Enche minh'alma e o coração de tédio A tua renúncia Dá-me um desgosto que não tem remédio Amar é viver É um doce prazer embriagador e vulgar Difícil no amor É saber renunciar.
Obs: Versos das músicas 'Aos Pés da Cruz' e 'Renúncia', ambas de 1942 e dos autores acima citados respectivamente. O Zé da Zilda(José Gonçalves) era filho de músico e aos 5 anos começou a se interessar por cavaquinho aprendendo com o pai. Nascido no Rio de Janeiro (em 6 de janeiro de 1908) no subúrbio de Campo Grande, por volta de 1920, no morro da Mangueira, fez amizade com alguns sambistas. Entre eles estava o Cartola, que mais tarde seria seu parceiro. Depois, na rádio Transmissora, conheceu a cantora e compositora Zilda. E com a mesma formou logo no início a 'Dupla da Harmonia'. Então, ficou assim: Zé de Zilda e Zilda do Zé, pois casou-se com ela em 1938, adotando tal batismo nas suas apresentações. O compositor faleceu em 10 de outubro de 1954.
O Marino Pinto era também jornalista. Ingressou, em 1928, no Ginásio São Bento, onde conheceu o músico Plácido Oliveira que foi seu grande incentivador. E fez, na época, a primeira composição, 'Ilka', dedicada à namorada. Em 1929 tornou-se amigo do cantor Sílvio Caldas. Nasceu em 18 de julho de 1916 no Rio de Janeiro e morreu no dia 28 de janeiro de 1965 na mesma cidade.
Roberto Martins ficou órfão de pai com apenas um ano. Como sua mãe tocava piano, a influência musical o marcou logo cedo. E aos 20 anos compôs seu primeiro samba, 'Justiça', de 1929. No ano de 1936, juntamente com o Valdemar Silva, fez 'Favela', o primeiro êxito da carreira. Mas somente três anos depois teve consolidada sua fama com 'Meu consolo é você', em parceria com o Nássara e gravado pelo Orlando Silva. A sua batucada 'Cai, Cai'(1940) se transformou num clássico do carnaval. Outro sucesso: a marcha 'O cordão dos puxa-sacos', de 1945. O compositor nasceu em 29 de janeiro de 1909 e faleceu no dia 14 de março de 1992.
Seu parceiro, o Mário Rossi, letrista, aos 10 anos já trabalhava e estudava. Aos 14 ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros de Angra dos Reis. Transferindo-se para o Rio de Janeiro em 1935, ficou conhecendo o 'rei das valsas' Gastão Lamounier. E com ele compôs 'E o destino desfolhou'( versos publicados aqui em 30 de junho passado), música gravada em 1937 pelo Carlos Galhardo. No mesmo ano publica o livro 'Poemas para ler e esquecer'. Rossi nasceu em Petrópolis em 23 de maio de 1911 e faleceu no Rio de Janeiro em 12 de outubro de l981(também já publicado). Seu maior sucesso foi mesmo 'Renúncia', que consagrou o então jovem cantor Nelson Gonçalves.
ESPAÇO LIVRE
.jpg) EPÍLOGO
Depois de cobrir-te de belos poemas rasgarei um por um para achá-la perene divina e formosa em teu corpo solidário e solitário.
E afogarei tuas mágoas nas miúdas letras de um livro em decomposição.
O romance de tua vida. Bené Chaves
(Quadro de Paul Gauguin -1848/1903)
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